Pra quem fez cara feia para o novo hit da Pitty, "Me adora", imaginando que todas as faixas do CD "Chiaroscuro" (expressão em italiano 'claro-escuro') seriam na mesma linha, com refrão chiclete, pode desfazer a carranca, pois o terceiro trabalho de inéditas da carreira da baiana roqueira apresenta o auge total da evolução atingida musicalmente por ela, principalmente arriscando alguns experimentos. Só que não é justo falar mal de "Me Adora", pois a letra é um verdadeiro tapa com luva de pelica em muita gente, principalmente da imprensa que constrói e ao mesmo tempo destrói. A música obviamente foi feita nos moldes pra rolar em MTV e rádios, totalmente compreensível, pois a realidade comercial é essa e a artista precisa sobreviver nesse meio, além de renovar público.
O bacana é que a Pitty continua preservando a língua portuguesa em suas letras, nada de 'pagar pau' pra gringo, além de conseguir mais uma vez dizer muita coisa que nós sentimos ou pensamos e às vezes por medo ou por hipocrisia não temos coragem pra desabafar. Preste atenção em um detalhe importante, só vai gostar desse CD ou pelo menos tentar gostar quem tiver disposição em degustar aos poucos - dia após dia - pra entender as mensagens que ela pretende passar e também a evolução instrumental realizada com muita competência pelos músicos que a acompanha. É como se agora a banda tivesse virado 'gente grande' de vez.
A canção que abre o álbum, "8 ou 80", tem algumas influências de indie rock e fala sobre segredos não compartilhados e também que não fazemos sempre o que gostamos ou muito menos coisas legais, pois achamos que precisamos sempre manter as aparências entre a sociedade e até pra nós, mesmo não gostando muito do que visualizamos no espelho (exterior e interior).
A primeira faixa pode ser emendada com a segunda, "Medo", já que temos pavor de tudo e ela ainda usa a antiga expressão popular "Se corre o bicho pega, Se fica o bicho come" - nesse trecho o refrão é transformado num estilo new metal. E Pitty segue o disco surpreendendo, ou melhor, ousando! "Água contida" começa com violino, numa batida que lembra os tangos de Buenos Aires, com a participação especial de Hique Gomez, do renomado grupo Tangos e Tragédias. Uma ótima escolha!
"Só agora" é uma baladinha romântica que lembra muito alguns hits da turma do "Iê, iê, iê" das antigas, forte candidata a ser música de trabalho. Mas como já foi dito, é necessário entender o CD, e essa música também tem a delicadeza infantil, talvez feita para o bebê que a Pitty perdeu em 2008, no terceiro mês de gestação. Só a própria poderá responder isso...
"Fracasso" e "Rato na Roda" resgatam toda a veia do rock mais pesado, mas só que Pitty não interpreta essas músicas com bastante energia pra acompanhar a força dos instrumentos, está um pouco monocórdia, principalmente no refrão, deixando um pouco a desejar. O final com um "auuuu" prolongado, de "Fracasso", lembra bastante as músicas feitas por muitas bandas do rock nacional nos anos 1980.
E a mulher Amélia, que existe até hoje e no mundo moderno trabalha em jornada dupla (casa e serviço), é perfeitamente descrita em "Desconstruindo Amélia", com instrumental que lembra alguns musicais do teatro (daqueles tipo "Chicago" usando colã preto, meia arrastão, salto alto e jogando a perna pra um lado e pro outro).
Pitty é fã declarada de The Mars Volta e utiliza essa forte influência no instrumental de "A sombra", num clima um tanto 'deprê' e totalmente progressivo com pitadas de psicodélico. Pra encerrar o CD, com "Todos estão mudos", Pitty dá uma porrada na orelha da nova geração que vê tanta coisa acontecer e fica apática, calada, sem reivindicar, sem o menor interesse, desvalorizando toda a batalha da juventude dos anos 70 e 80 contra a ditadura militar, importante também para o crescimento musical em nosso país e o surgimento da Tropicália, além das passeatas "Diretas Já" rumo a democracia em nosso país.
E até pra entender a capa de "Chiaroscuro" é necessário ter cultura, pois o nome (claro-escuro) é referente a uma das técnicas inovadoras de pintura usada pelo italiano Leonardo Da Vinci, caracterizada pelo contraste entre luz e sombra, representado no quadro feito por Catarina Gushiken, em 256 tons de cinza, enquanto a banda gravava o CD.
Essa é a Pitty, que cresceu e virou mulher, sem perder o humor ácido , sua essência, sensibilidade, com bastante inteligência e cultura que carrega na bagagem - muita literatura por sinal - usando em sua obra tudo que já absorveu em seus quase 32 anos de idade.
Nota 8,5
Pitty
CD Chiaroscuro
Ano 2009
Gravadora: Deck Disc
Faixas:
01. "8 ou 80"
02. "Me Adora"
03. "Medo"
04. "Água Contida"
05. "Só Agora"
06. "Fracasso"
07. "Desconstruindo Amélia"
08. "Rato na Roda"
09. "Trapézio"
10. "A Sombra"
11. "Todos Estão Mudos"
Por: Gisele Santos - 28/08/2009 - www.mundorockdecalcinha.com
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