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ENTREVISTA COM A BATERISTA FERNANDA TERRA



Estefani Medeiros

Em um prédio de Brasilia, os vizinhos da baterista Fernanda Terra ouviam até no terréo a 'batucada' dela. E muitos consideravam tudo aquilo barulheira total. Eles nem imaginavam que algum tempo depois ela se tornaria fera na bateria, inclusive chegando à final para tentar fazer parte da banda Altas Horas (Globo), além de participar de uma turnê pelos Estados Unidos com Dominatrix. Fernanda passou por várias bandas, foi da Food 4 Life, e desde 2005 batalha com a banda de punk rock Final Fight (formada pelo ex guitarrista da lendária banda inglesa Cock Sparrer, Chris Skepis). Em entrevista exclusiva pro Mundo Rock de Calcinha, Fernanda fala sobre sua trajetória, comenta que internet ajuda e atrapalha bandas independentes, dá dicas para dicas pra quem pretende tocar bateria, e diz acreditar que o cenário underground ainda tem jeito de melhorar, mas reclama da falta de consciência do público brasileiro em apoiar nossas bandas. Confira:

Mundo Rock de Calcinha - Já faz 18 anos que você toca batera, o que você viu mudar no underground que achou legal e o que repudia hoje?
Fernanda Terra -
Antigamente tudo era mais underground mesmo, você tinha que fazer correria pra caramba pra conseguir tocar nos lugares, não tinha internet, tinha muito zine, correspondência por carta, telefonemas pra marcar shows. Ai que saudades desse tempo... Hoje em dia é tudo muito fácil, tem banda que nem tem música ainda e já é um sucesso na internet por causa de fotolog e tal... Faz sucess pela imagem do que pelo som mesmo, o que eu acho péssimo.

Mas eu sou a favor da tecnologia, porque facilita bastante a divulgar o trabalho, trocar contato e tudo mais.

E hoje em dia tem menos preconceito, tem muita menina tocando, ninguém mais duvida que uma menina pode tocar bem, tem que ser muito alienado pra ficar surpreso com isso hoje em dia.

Mundo Rock de Calcinha - Falando nisso... Quando começou a tocar, sofria algum preconceito por ser mulher? Se sim, conte um caso:
Fernanda Terra -
Vários... Era legal quando eu morava em prédio com meu irmão, toda vez que ele encontrava um vizinho no elevador, todo cabeludão, levava uma bronca por mim (risos). Ninguém imaginava que era eu a baterista... Mas brincadeiras a parte, sempre achavam que eu era vocalista ou a namorada de um dos músicos. E uma vizinha me disse pra parar de tocar "esse instrumento barulhento" porque era muito mais bonito uma menina tocando violão do que bateria. Putz! Se eu ficar lembrando de tudo aqui vou até amanhã...hahaha

Mundo Rock de Calcinha - Quais são as suas bateristas favoritas? Conhece o trabalho da Vera Figueiredo?
Fernanda Terra -
Cindy Blackman, Samantha Maloney, Lilian Carmona, Vera Figueredo, Pitchu...Putz! Várias… Conheço o trabalho da Vera desde 1992… Sinto uma evolução gigante na pegada dela...Ta destruindo!!! Eu fiz um teste pra tocar nos Altas horas também, fui pra final com ela. Na real passei em todos os testes, a penúltima vez q fui lá na Globo vi a Vera no camarim, aí já desanimei (risos)... Claro que ela ia ser escolhida, mas ainda teve mais um teste com ela na platéia. Enfim, ela está lá até hoje. O Serginho Groisman me disse que se ela desistisse, eu entrava no lugar, mas acho que ela nunca vai desistir.

Mundo Rock de Calcinha - A bateria é um instrumento difícil para começar, seja pela dificuldade de assimilar os tempos, pelo barulho que o próprio instrumento faz (não dá para tocar baixinho) e o espaço que ela ocupa. Quando você percebeu que as aulas que teve em Brasília seriam o que iria fazer pelo resto da vida?
Fernanda Terra -
Quando eu comecei não achava que ia ser pro resto da vida, nem minha mãe (se não ela não teria deixado eu começar a tocar), mas quando se tem 13 anos não assumimos muitas responsabilidades, e isso ajuda a pessoa começar um hobby e levar a sério. Agora realmente a parte de incomodar os outros me incomodava um pouco também, pois eu morava no décimo oitavo e dava pra ouvir do térreo (mesmo abafando). Mas fazer o quê? Eu tinha que treinar! E eu confesso que ficava feliz que dava pra ouvir tão longe ahahahaha .

Mas estou aí até hoje, não parei mais, não me imagino sem tocar, praticar todo esse tempo foi fluindo, não foi uma coisa forçada, eu acho realmente uma das coisas mais legais de se fazer, nunca pensei: "ah agora vou parar de tocar pra poder estudar ou pra fazer isso ou aquilo". A batera sempre permaneceu montada na minha casa, e eu sempre sento nela pra dar uma treinada mesmo quando estou total sem tempo.

Mundo Rock de Calcinha - Quais ritmos te influenciam, fora o rock, e a importância de buscar outras referências?
Fernanda Terra -
Eu curto todo tipo de ritmo... Atualmente estou aprendendo samba e ritmos latinos também. Adoro tocar esses ritmos que exigem mais coordenação. Gosto de Blues, reggae, ska, funk (não o do Rio) alguma coisa da MPb.

Mundo Rock de Calcinha - Hoje você trabalha profissionalmente como baterista? Ganha dinheiro fazendo isso, ou tem outra profissão? Onde o trabalho com design/ilustração entra?
Fernanda Terra -
Então, já dei aula de batera pra iniciantes. Hoje só tenho a banda Final Fight, mas não dá pra viver com o faturamento de banda underground... Eu trabalho como designer numa balada de música eletrônica, chamada The Box. Mas mesmo não vivendo de batera eu adoro trabalhar com designer também e não me imagino fazendo outra coisa que não seja ligada a arte.

Mundo Rock de Calcinha - Você acha que o underground ainda tem jeito?
Fernanda Terra -
Acho que sim, até porque tudo do mainstream surgiu do underground né? Se não surgiu é fake!!! Mas o público podia explorar melhor o underground, pesquisar bandas, ir mais aos shows, consumir mais o underground. O problema é que o pessoal não reclama de gastar R$200 num show gringo e reclama de pagar R$15 num show nacional de qualidade. E é aí onde a internet atrapalha também. Fica super cômodo ver os vídeos pelo youtube ao invés de ir aos shows, e sentir a energia ao vivo que é bem diferente né? Quem vai aos shows sabe do que eu to falando.

Mundo Rock de Calcinha - Como foi a experiência com o Dominatrix?
Fernanda Terra -
Experiência única! A batera delas não conseguiu o visto aí eu fui no lugar pra cobrir os shows que já estavam agendados. Correria pra tirar as músicas, tirar o visto e tudo mais. Deu certo! Foi um mês pela Costa Oeste dos EUA, o público era totalmente Dyke feminista, fomos bem recebidas e toquei até samba no palco a pedidos de uma punk.

Mundo Rock de Calcinha - O que todos esses anos de carreira lhe trouxeram de aprendizado?
Fernanda Terra -
Banda é um casamento com mais de uma pessoa, os integrantes devem ter os mesmos ideais, mesmas intenções, e tem que rolar uma amizade legal se não, não vai pra frente. Super difícil, mas quando a química bate rola legal.

Mundo Rock de Calcinha - Quais são as novidades da Final Fight?
Fernanda Terra -
A gente saiu na coletânea da Revista 77. Estamos fazendo músicas novas para o próximo CD. Planejando clipe. E vamos lançar um vídeo da banda com pedaços dos melhores shows.

Mundo Rock de Calcinha - Qual equipamento você indica para meninas que estão começando?
Fernanda Terra -
Equipamento nacional!!! Tem boas marcas no mercado e são mais baratos que os gringos (normalmente). As marcas que eu uso são: batera RMV, pratos Krest, baquetas Alba e case Hellocases. Aliás, a Hellocases e a Alba tem linha exclusiva feminina que foi lançada na Expomusic 2009.

Mundo Rock de Calcinha - Qual mensagem você daria para girl's bands iniciantes?
Fernanda Terra -
Treinem bastante! Que vocês também podem! Não se apóiem no "não sei tocar, mas toco" que muita menina diz por aí. Vocês são capazes de tocar melhor que muito homem. É isso, não desistam por nada, nem machismo, nem namorado, nem família e falta de apoio. Acreditem em vocês! E corram atrás do que vocês querem.

Site Final Fight - www.myspace.com/finalfightpunkrock

Site da Fernanda Terra - www.myspace.com/fernanda_terra


Fotos: divulgação
15/10/2009

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